quarta-feira, 30 de maio de 2012

Usos dos carros de boi no comércio de Pouso Alegre na década de 30

Ana Eugênia Nunes de Andrade
Juliano de Melo Gregório

RESUMO: O presente artigo tem o objetivo de compreender os usos dos carros de bois no comércio de Pouso Alegre durante a década de 30. Neste sentido, pretendemos focar os conflitos sociais e econômicos dos trabalhadores rurais no município, a partir da política desenvolvimentista que começou a ser implantado nesse período. Para tanto, são analisados fotografias da cidade, publicações de jornais locais e depoimentos orais enquanto fonte de pesquisa. Após o estudo observamos que os carreiros[1] resistiram às idéias progressistas impostas pelos administradores. Esta pesquisa tem intuído de contribuir para construção crítica da História Social pouso-alegrense.

Na década de 1930 a administração do prefeito Dr. Vasconcelos Costa realizou, na cidade sul mineira de Pouso Alegre, inúmeras obras públicas que fomentavam a inserção do município à ordem desenvolvimentista nacional. A título de exemplo: a venda e demolição da antiga cadeia, localizada na extinta praça Francisco da Veiga, em virtude do prolongamento da avenida Dr. Lisboa que é ponto referencial até os dias atuais. O apelo ao moderno ratificava a construção de monumentos arquitetônicos aos moldes franceses, a exemplo das obras de embelezamento da capital nacional realizada por Pereira Passos no século XIX. Ao mesmo tempo, os laços campesinos também eram muito evidentes no cotidiano pouso-alegrense, e por que não pensá-los em nível da conjuntura política e social da nação?


 
Imagem 1 – Avenida Doutor Lisboa - 1948[2]

Esta imagem retrata o cotidiano da avenida Dr. Lisboa, ponto central da cidade. Observamos que o estilo arquitetônico nos remete ao ideário urbano francês anteriormente mencionado: uma avenida larga, pavimentada e arborizada. A ausência de fios nos postes de iluminação e o modelo arquitetônico das casas, à margem da avenida, são também características preponderantes do mesmo ideal urbano. Ao fundo da imagem identificamos a circulação de automóveis pela avenida. No canto inferior direito da fotografia, identifica-se um cavaleiro.  

Ao passo que, segundo dado do IBGE[3]a população brasileira era em maioria rural. Sendo 30% habitantes, entre homens e mulheres, urbanos contra 69% habitantes rurais. Nesse sentido, analisaremos a dualidade entre a cidade e o campo na década 30 em Pouso Alegre, a partir dos usos de carros de bois, enquanto prática social no município, uma vez que estes eram utilizados tanto na produção agrícola realizada no campo, quanto no comércio realizado na cidade.

“O campo e a cidade são realidades históricas em transformação tanto em si próprias quanto em suas inter-relações. Temos uma experiência não apenas do campo e da cidade, em suas formas mais singulares, como também de muitos tipos de organizações sociais e físicas intermediárias e novas” (WILLIAMS, 2011, p. 463).

Considerando as palavras do historiador, campo e a cidade estão em constantes processos de (re) significação. Dessa forma, seus contrastes não são mera dicotomia que opõem, respectivamente, da barbárie ao lócus. Sobretudo, novas abordagens são possibilitadas nesse sentido. Sendo assim, nosso trabalho contribui para construção crítica da historiografia pouso-alegrense.  

Durante a década de 1930, Pouso Alegre ainda não receberá investimentos para o desenvolvimento industrial de sua economia. Lembrando que, a industrialização no país, nesse período era restrita, basicamente, a cidade de São Paulo e capital Rio de Janeiro. O comércio era utilizado como discurso legitimador dos ideais urbanísticos, que caracterizava os meios de produção e trabalho no espaço urbano pouso-alegrense. O jornal “O Linguarudo” ecoava a voz do progresso

Para o viajante, que chega de outras terras, Pouso Alegre é uma surpresa e um milagre, por que ninguem supõe que um município como este, que não tem tido auxilio de grandes empresas particulares ou oficiosas, posso apresentar aspectos tão encantadores, o movimento comercial tão desusado, a produção agricula tão variada em grande escala como Pouso Alegre apresenta, em comparação com outras cidades brasileiras. [...] As terras muito divididas e cultivadas, produzindo varios produtos diferentes, não deixa haver as crises motivadas nos logares onde se pratica a monocultura[4].

“O Linguarudo” era um jornal que abordava, com crítica e humor, os acontecimentos sociais e políticos da cidade. Ele “foi um dos jornais mais lidos e admirados da cidade, graças à singularidade, à persistência e ao carisma do editor” (QUEIROZ, 1998, p. 101), sobretudo seu redator – Pedro Lúcio de Andrade – era um comerciante local.

Observa-se na publicação, como dito anteriormente, que na década de 30 não havia indústrias em Pouso Alegre e o comércio ratificava o processo de desenvolvimento urbano. Adjunto, nota-se também que a atividade agrícola era preponderante à economia do município.

As principais casas comerciais localizavam-se no centro da cidade. Ou ainda, no próprio Mercado Municipal.

 
Imagem 2 – Fundos do Mercado Municipal de Pouso Alegre[5]

Na fotografia acima, observamos um fluxo intenso de pessoas ao fundo do Mercado Municipal. Registrada na década de 1920, mulheres, crianças e homens adultos são identificados num dia de funcionamento normal do comércio. Podemos observar crianças sentadas sobre carrinhos de madeira, estes pequenos veículos eram utilizados pelas mesmas para executarem o serviço de entrega de compras aos clientes do mercado. Nota-se aqui uma forma de trabalho de crianças na cidade. O transporte de mercadorias também era realizado por tração animal. No canto inferior direito da fotografia apresenta-se um animal eqüino devidamente preparado para a condução de carga.
Nesse sentido, os carros de bois estavam envolvidos de modo ambivalente na constituição do espaço urbano pouso-alegrense. Em primeiro lugar, fazia-se presente junto ao cultivo e produção agrícolas, como por exemplo: os territórios designados a agricultura no campo eram por eles arados, pois praticamente não havia tratores para a execução dessa atividade. Em segundo lugar, os carros de bois eram utilizados para transportar mercadorias do campo para a cidade.

Com efeito, a principal função dos carros de bois na cidade era transportar lenha aos citadinos, pois existiam fogões a gás nesse período. Sobre o transporte de lenha por carros de boi o ex-carreiro Rubem Dias Monteiro[6] nos diz:

Eu fornecia lenha pr’um tal de João Mariano, que vendia nas carrocinha pra rua. Despeja lenha pr’ele, ele pegava a corrocinha dele, punha os pauzinho e ia entrega... Nas casa. Não existia gás, né? Era só na lenha, então nóis ia vendê [...] Eu vendia lenha pra cidade inteira. No quartel, o que eu forneci lenha no quartel não foi brincadeira! Então tocava a vida desse jeito [...][7]

Em sua fala observamos que os carros de bois carregados de lenha tinham seus clientes específicos, ou seja, ao deixar o campo, já havia um comprador destinatário a espera do produto na cidade. Na maioria dos casos eram os próprios donos de armazéns que compravam a carga para revenda. Identificamos ainda presença militares na cidade de Pouso Alegre. Por sua vez, eles já faziam parte oficialmente do cenário citadino desde 1918 com a criação do 10º Regimento de Artilharia Montada (10º RAM). Vale lembrar que nesse período era vigente no Brasil o regime político do Estado Novo e os militares eram muito influentes no governo.

Por meio dos procedimentos de História Oral colocaremos em cheque as experiências sociais dos carreiros junto ao desenvolvimento urbano pouso-alegrense, pois o passado plasmado no presente revela, através dos depoimentos, as dinâmicas pessoais vivenciadas em meio aos processos sociais. A História Oral também configura a identidade social desses trabalhadores.

“Contar uma estória é tomar as armas contra a ameaça do tempo, resistir ao tempo ou controlara o tempo. O contar uma estória preserva o narrador do esquecimento; a estória constrói a identidade do narrador e o legado que ela ou ele deixa para o futuro”.  (PORTELLI, 2010, p. 296).

Dessa forma, defendemos que a história oral revela as práticas sociais dos carreiros ocultadas pelos discursos institucionais desenvolvimentistas que construíram a história oficial do município. Do mesmo modo, ela contribui para formular a identidade social e o legado cultural desses trabalhadores

Através dos depoimentos [História Oral], analisar que elementos simbólicos são construídos pela população [carreiros], e se apresentam, muitas, como o avesso daquilo que lhe é imposto cotidianamente, à medida essa população convive tolera, assimila, reproduz a cultura oficial (MONTENEGRO, 2010, p. 13).

Para que pudessem circular pela cidade ou mesmo no campo, os carros de bois passavam por um processo de cadastramento junto à Prefeitura Municipal. Após o cadastro, era fixada nos carros uma placa metálica com o número de registro, semelhante ao modelo abaixo:

 
Imagem 8: Placa metálica com o número de registro[8]

O cadastro dos carros de bois implicava na tributação anual de impostos para circulação e está intimamente ligado às criações das estradas municipais. Outro aspecto a ser considerado refere-se ao interesse por parte do poder público em conservar o bom estado das estradas de rodagem, visto que os carros de bois danificavam-nas devido ao peso e a curta espessura das rodas. As placas eram circunscritas em uma chapa ou calçadas por hastes de ferro chamadas pião.  

Além dos produtos agrícolas, o comércio da cidade de Pouso Alegre também era fomentado por mercadorias e serviços industrializados ou manufaturados, tais como: guarda-chuvas, chapéus, tecidos e roupas.

 
Imagem 2 – Anúncio publicado no Jornal ‘O Município’,[9]

O anúncio acima foi publicado no jornal “O município”, que era um órgão oficial da Prefeitura Municipal, criado em 1938, por Tuany Toledo. A propaganda citada divulga um ponto comercial que trabalha com inúmeros tipos de produtos, entre eles: guarda-chuvas, chapéus, tênis e outros. Tais mercadorias não eram produzidas em Pouso Alegre, mas vinham de fora para atender ao público consumidor. O Largo do Mercado, localização da Casa Cometa, era um ponto central da cidade.

 
Imagem 3 – Anúncio publicitário publicado no Jornal O Município.[10]

“Boccato e Martins” era o nome de uma alfaiataria pouso-alegrense que tinha como endereço comercial outro ponto central da cidade: a praça Senador José Bento. Nota-se que ela era especializada na confecção de uniformes. A partir desse anúncio publicitário identificamos a presença militares na cidade de Pouso Alegre.

Apesar dos ideais políticos desenvolvimentistas em apelo a urbanização, os carros de bois mantiveram-se enquanto prática social da cidade de Pouso Alegre até o início da década de 70. O transporte de tração animal era o meio mais utilizado para o abastecimento dos produtos agrícolas e de lenhas para uso doméstico e comercial. Ao passo que no setor campesino do município os trabalhadores rurais resistiram até primeira metade da década de 80.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MONTENEGRO, Antonio Torres. História ora e memória: a cultura popular revisada. 6ª ed. São Paulo: Contexto, 2010.

PORTELLI, Alessandro. Ensaios de história oral. São Paulo: Letra e Voz, 2010.

____________________. O momento da vida: funções do tempo na história oral. (Muitas memórias: outras histórias)

QUEIROZ, Amadeu de. A história de Pouso Alegre e sua imprensa. Pouso Alegre: Ferrer Comunicações, 1998.

WILLIAMS, Raymond. Campo e cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.



[1] Carreiros: pessoa que conduzem carros de bois.
[2] Acervo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo.
[3] Instituto Brasileiro Geografia Estatística (IBGE).
[4] ANDRADE, Pedro L. Sua beleza, seu progresso, sua administração. O Linguarudo, Pouso Alegre. MG, 8 out. 1939, p. 1
[5] Acervo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo.
[6] Rubem Dias Monteiro foi carreiro durante cerca de 20 anos, entre as décadas de 1930 à década de 1950, morador do bairro dos Afonsos desde sua infância, atualmente ele é aposentado e reside em uma propriedade rural no mesmo bairro.
[7] MOTEIRO, Rubem Dia. Depoimento concedido a Juliano de Melo Gregório. Pouso Alegre, 2011.
[8] Acervo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo.
[9] O MUNICÍPIO. [Sem título]. Pouso Alegre. MG, 7 mai. 1938. p. 3.
[10] A CULTURA. [Sem título]. Pouso Alegre. MG, 22 jun. 1938, p. 4.

Os resignificados históricos da Estação Ferroviária de Pouso Alegre/MG

Ana Eugênia Nunes de Andrade
Universidade do Vale do Sapucaí


* Artigo publicado nos Anais do I Simpósio de Espaço, Sociabilidade e Ensino


Resumo: O artigo tem como objetivo debater as mudanças citadinas e os conflitos sociais em torno da antiga Estação Ferroviária da cidade de Pouso Alegre. Podemos dizer que as memórias da cidade estão representadas nos edifícios, nas ruas e avenidas, nos monumentos, nos prédios. A partir da análise das fotografias observamos o posicionamento dos políticos na utilização deste espaço público, os resignificados do prédio e as memórias dos sujeitos sociais vivenciadas e reorganizadas pela memória hegemônica.

A cidade é um espaço de sociabilidades nela estão inseridos atores que dialogam suas relações sociais e que muitas vezes se opõem as decisões do poder público. Além disso, os significados da cidade estão nos espaços públicos sendo atribuídos sentidos que se manifestam a partir das diversas memórias.

O espaço da cidade e as práticas em torno dela também trazem consigo toda uma rede de representações, de memórias que se entrelaçam construindo o saber e a visão de mundo que envolve os diferentes sujeitos. “A História precisa ser entendida com o conjunto de experiências humanas. Ao se fazer um estudo dos grupos sociais considera-se os significados das práticas coletivas de acordo com as ações dos sujeitos sociais e das convenções instituídas pelas comunidades” (CHARTIER, 2002, p.123).

Desde o início o prédio da Estação Ferroviária é visto pela população como símbolo de progresso para a cidade. A chegada do primeiro trem foi um acontecimento notável para os políticos da Capital Federal, do estado e do município. Os trilhos da Estrada de Ferro Sapucahy mudam a mentalidade dos administradores, tudo que se encontra ao redor do prédio da estação precisa ser remodelado nos moldes urbanísticos do desenvolvimento.

Foi no dia 25 de Março de 1895 que aqui chegou o trem inaugural, trazendo a seu bordo a directoria da Estrada, representantes do governo de Minas, da imprensa da Capital Federal, e grande numero de convidados pela directoria e pela comissão dos festejos com que a Camara Municipal deliberou commemorar este notável acontecimento (OLIVEIRA, 1900, p. 81).
A estação é uma construção singela, em fôrma de chalet; tem uma platafórma regular, mas pequena para conter a grande massa de povo, que quase sempre ahi se agglomera por occasião da chegada dos trens. Tem um pequeno armazém para deposito de mercadorias, dois gabinetes, communicando-se, para o agente e telegraphista, separados do armazém por um corredor que serve de sala de espera; e accomodações no restante do edifício para a família do agente (OLIVEIRA, 1900, p. 81).

Estas obras inacabadas, perto da estrada de ferro, causam má impressão e produzem verdadeiros contrastes: - aqui a locomotiva symbolisando o progresso, alli as ruínas symbolisando o atraso. (OLIVEIRA, 1900, p. 83)

Falar dos resignificados da cidade implica estabelecer conexões variadas com a própria experiência de viver em cidades. As marcas de afetividade compõem um acervo especial aos citadinos ao longo do tempo. Lembranças, sentidos, imagens, discursos se movimentam na memória coletiva. Essas marcas indicam códigos culturais que são carregados de conflitos, de ideologia, de resistências frente às práticas políticas que resignificam as imagens na cidade, reorganizando os sentidos pela memória hegemônica.

A partir dos conceitos de Thompson entendemos que cultura é uma arena conflitante, onde os sujeitos sociais trocam diferentes recursos entre o escrito e o oral, o dominante e o subordinado, a aldeia e a metrópole (THOMPSON, 2001. p. 17).

A autora Yara Aun Khoury contribui para uma análise sobre memória e cultura:
Considerando a história um processo de disputas entre forças sociais, envolvendo valores e sentimentos, tanto quanto interesses, dispostos a pensar e avaliar a vida cotidiana em sua dimensão histórica, a ponderar sobre os significados políticos das desigualdades sociais, nossas atenções se voltam para modos com os processos sociais criam significações e como essas interferem na própria história. Nesse sentido é que entendemos e lidamos com cultura como todo um modo de vida (FENELON, 1997, p. 18).

Pertencer à cidade implica vivenciar experiências sempre remodeladas ao longo do tempo. Estas práticas cotidianas são reconstruídas pelo pensamento e pela ação dos sujeitos sociais que criam a cada tempo outras cidades na cidade. Partimos da seguinte reflexão: qual a função social destinada nos diferentes tempos? Quais os significados atribuídos a Estação Ferroviária na cidade? Quais os elementos simbólicos desse espaço reconstruído ao longo dos anos?

A partir da análise das fotografias observarmos as transformações ocorridas na utilização do antigo prédio da Estação Ferroviária e seus arredores.  Com o estudo e a análise de imagens podemos observar a questão dos processos simbólicos.É mediante a análise dos processos simbólicos que se percebe como se criam os laços de pertencimento entre os membros de uma mesma sociedade, como e porque a memória coletiva pode unir e separar indivíduos de uma mesma sociedade ou grupo social, como e porque o imaginário social reforça certas visões de mundo mesmo quando as condições materiais para que elas existam já tenham desaparecido. Esses modos de comunicação criam campos de sabe comum; funcionam como sinais de orientação inclusive para as práticas sociais (BORGES, 2003, p. 79).

De acordo com Kossoy entendemos o papel da imagem fotográfica enquanto elemento de fixação da memória, esta fonte histórica deve ser analisada além da superfície. Ela nos mostra alguma coisa, porém seu significado a ultrapassa. Existe um conhecimento implícito nas fontes não verbais como a fotografia. “As fontes iconográficas produzidas através de diferentes formas de expressão gráfica carregam em si informações sobre certos fatos e sofre a mentalidade de uma época. Não só completam as informações transmitidas pelas fontes escritas, como, também enriquecem o conhecimento com dados reveladores” (KOSSOY, 2007, pág. 103-104).

A imagem fotográfica nos ajuda a desvendar os significados atribuídos aos espaços púbicos da cidade, revelando assim, o modo como a sociedade interpretava a dinâmica social desses sujeitos. Assim, a imagem fotográfica fixa um fato ocorrido em um momento determinado, preservando a imagem das faces, dos lugares, das coisas, das memórias, dos fatos históricos e sociais. Dessa forma, a fotografia pode ser percebida como um espelho que possui memória (BITTENCOURT, 1998, p. 205).

A chegada da ferrovia em Pouso Alegre, datada em 1895, marcou a chegada do desenvolvimento comercial e social para a cidade, a Estrada de Ferro Sapucaí, ligava as terras mineiras ao Vale do Paraíba.  Esse movimento em torno da Estação sustentou durante algumas décadas o transporte nestes veículos de tração animal e incrementou a vida na cidade.

Foto cedida pelo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo – Estação Ferroviária

Podemos notar na fotografia acima o prédio Estação Ferroviária de Pouso Alegre de 1904, cinco anos após a Proclamação da República no Brasil, pode-se observar a relação dos habitantes da cidade com o espaço. Além da plataforma, a estação ainda abrigava uma sala para o telégrafo, bilheteria, um amplo armazém que abrigava a carga que seria despachada ou recebida, sala de espera e sanitários: masculino e feminino. Os homens que estão esperando o trem usavam como era comum àquela época terno, gravata e chapéu. Já os que estão nas ruas se vestem de uma maneira mais simples. Podemos ver também uma criança enchendo uma lata d água no chafariz, e alguns homens negociando seus produtos, era um espaço vivo da cidade.  

No cruzamento da atual Avenida Doutor Lisboa com a Avenida Vicente Simões, podemos observar que as ruas eram de terra. Em torno do prédio podemos notar que os meios de transporte eram carroças e carros puxados por animais. Homens de diferentes classes sociais moldam o cenário da cidade. A fotografia mostra os conflitos da época, de um lado a presença do desenvolvimento e do progresso simbolizados na Estação, do outro lado, traços rurais da cidade, coexistindo com os ideais republicanos da época.

...pode-se identificar o começo do que virá a ser o urbanismo moderno no encontro necessário entre o saber médico e as técnicas da engenharia, configurando as bases das práticas sanitárias que até as primeiras décadas deste século mantiveram-se como referência para as intervenções nas cidades. (BRESCIANI, 2001, p. 244).

 
Foto cedida pelo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo – Estação Ferroviária – 1930

Nesta fotografia da década de 30 percebemos mudanças em torno da Estação. É nítido o aumento do fluxo de pessoas em volta do prédio (homens, mulheres e crianças). Ao fundo a direita, podemos notar a presença de carroças e animais, mas também aparecem automóveis, símbolos da modernidade, nas ruas empoeiradas da cidade. Elementos simbólicos do rural e do urbano mostram o espaço resignificado pelas práticas sociais. Os ideais de progresso da década de 30 estão pautados na ideia de modernização, tendo como pano de fundo a  industrialização que começa a aparecer no país.

Os conflitos sociais retratados nas fotografias nos dão dimensões dos espaços de discussão no contexto urbano, nos dizem como as disputas ocorrem e nos mostram as transformações que resultam delas, recuperam também, questões pertinentes às relações sociais advindas do campo e experimentadas na cidade
É também um modo de recuperar a importância da imaginação simbólica na vida social. Quando dizemos que uma imagem “fala por si mesma” e nos interpela, estamos supondo que é possível estabelecer um diálogo, tratá-la de certa forma como um”sujeito”que faz suas próprias perguntas e nos interroga, e não como objeto passivo e inanimado (ALEGRE, 1998, p. 68)

Foto cedida pelo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo – Estação Ferroviária 1980

Já nesta imagem da década de 80, período em que a Estação Ferroviária foi desativada, podemos perceber mudanças no espaço urbano, as ruas estão calçadas de paralelepípedos, e em torno do prédio percebe-se o aparecimento de moradias residenciais. No chão, os trilhos por onde passavam os vagões e muitas histórias de vida, perdem o sentido e o lugar remete a uma cidade fantasma, que novamente é resignificada pelas políticas públicas vigentes. Os atores sociais que vivenciarem experiências em torno do cruzamento das duas artérias centrais da cidade são outros. Cabe aqui, ressaltar que neste período o Brasil era governado pelos militares que discursavam os ideais do Milagre Econômico. Muitas indústrias estrangeiras investiram capital no país, principalmente, as do setor automobilístico. Os trens deram lugar à malha rodoviária, mas o prédio e seus significados permaneceram vivos nas lembranças dos sujeitos sociais que circulavam e trabalhavam na Estação. “É preciso, portanto, não apenas recuperar os traçados dos múltiplos percursos, como também identificar as diversas maneiras de caminhar; não apenas inventariar os lugares, como analisar as maneiras de se apropriar dos lugares”(BARROS, 2007, p. 45).

Foto cedida pelo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo – Estação Ferroviária – Década de 80

Em 1988, o prédio da Estação foi reformado e adaptado para abrigar a “Casa da Cultura Menotti Del Picchia”, tendo funcionado aqui uma galeria de artes plásticas, a Secretaria Municipal de Cultura e a Biblioteca Municipal “Prisciliana Duarte de Almeida”.  Menotti Del Picchia, um dos líderes da Semana de Arte Moderna de 1922, o príncipe dos poetas brasileiros estudou no Ginásio Diocesano São José, de Pouso Alegre. Durante os tempos de colégio na cidade escreveu seus primeiros poemas, dirigiu o jornalzinho o Mandu, e recebeu da Câmara Municipal, o título de cidadão pouso-alegrense.

A partir desta data, o espaço público é resignificado, nele é estampada a marca da cultura da cidade.  O local anteriormente marcado por lembranças do vai e vem dos vagões do trem, é simbolizado pelas práticas culturais dos artistas da cidade e região e pelos admiradores das diversas expressões artísticas que ali eram produzidas e expostas. Outros discursos são ecoados, outras imagens são projetadas, outras histórias são contadas, outros conflitos habitam o espaço.

 
Foto cedida pelo Museu Histórico Municipal Tuany Toledo – Estação Ferroviária - 2000

Atualmente o prédio é utilizado como o Centro de Convivência do Idoso. “O tombamento da Estação Ferroviária ocorreu em 1999 com o decreto nº 2349/99.” Percebemos aqui outra marca no prédio, em outro lugar da edificação, com outros sentidos exposto na logomarca ‘Centro Cultural de Convivência do Idoso’ que marca o antigo prédio da Estação Ferroviária de Pouso Alegre.  Ao analisarmos os dizeres atuais, notamos que o espaço agora não é mais o espaço da cultura, mas sim, de um determinado grupo social, limitou-se as práticas vivências neste espaço público. Por que a administração pública resignificou este espaço público? Por que a administração atual mantém esta significação? Que interesses estão em jogo?  

Cabe ressaltar, que somente ao caminhar pelas ruas de Pouso Alegre, podemos realmente notar seus resignificados, dentro de suas práticas culturais, permeados de valores, costumes e de experiências de vida na cidade.

Demonstra-se assim, as múltiplas possibilidades de fazer da história um constante exercício de construção. A proposta desta pesquisadora foi desvendar e refletir sobre as múltiplas experiências do cotidiano pousoalegrense, buscando na dinâmica da cidade os diferentes sentidos dos sujeitos sociais.
No sentido de que a cidade é um espaço marcado pelos interesses políticos, entender os significados das políticas públicas, seus processos de formação e os outros sentidos que seus idealizadores deram ao antigo prédio da Estação Ferroviária de Pouso Alegre. Neste artigo, muito mais que contar os resignificados do antigo prédio da Estação Ferroviária de Pouso Alegre procuramos problematizar as diferentes relações sociais no universo citadino, de acordo com a visão de mundo desses sujeitos, que constantemente mesclam os seus viveres com outros segmentos da sociedade, onde todos aparecem engajados na construção de uma teia que se encontra sempre em conflitos nos meandros do poder público.

Referências bibliográficas

ALEGRE, Maria Sylvia Porto. Reflexões sobre iconografia Etnográfica: por uma hermenêutica visual. In: Desafios da imagem: fotografia, iconografia e vídeo nas Ciências Sociais.Campinas, SP: Papirus, 1998.
BARROS. José D’Assunção. Cidade e História. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
BITTENCOURT, Luciana Aguiar. Algumas considerações sobre o uso da imagem fotográfica na pesquisa Antropológica. In: Desafios da imagem: fotografia, iconografia e vídeo nas Ciências Sociais. Campinas, SP: Papirus, 1998.
BORGES, Maria Eliza Linhares. História e Fotografia. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2003, p. 79
BLOCH, Marc. Apologia da História: ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.
CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora UFRS, 2002.
FENELON, Déa Ribeiro (et. al). Muitas memórias, outras histórias. São Paulo: EDUSP. 1997.
KOSSOY, Boris. Os Tempos da Fotografia: o efêmero e o perpétuo. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudo sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 

Encantos e desencantos da cidade: histórias e memórias do Mercado Municipal de Pouso Alegre/MG

Ana Eugênia Nunes de Andrade[1]
Fernando Henrique do Vale[2]

Resumo: Este trabalho tem por objetivo discutir as relações de sociabilidade em torno do Mercado Municipal de Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais e as políticas de urbanização no período de 1940-1970. O Mercado Municipal, desde o fim do século XIX, é um ponto de tensões e conflitos sociais na cidade. Com o passar do tempo, desde sua fundação em 1873 até os dias atuais, sua estrutura sofreu reformas, ampliações e melhoramentos pautados no ideal higienista do início da república no Brasil e nos moldes do pensamento dos governantes do regime militar de 1964.

Palavras-chave: Cidade. Urbanização. Políticas públicas.

Abstract: This work has like objective to discuss the society relations around of Municipal Market of  Pouso Alegre, at south of  Minas Gerais and the politicals  of  urbanization in period of 1940-1970. The Municipal Market since finish of  century XIX is an point of tensions and socials  at city. In the course of time since your foundation in 1873 until today  your structure received expansions and improvements listed on higienista idea in begin of the republic at Brazil and along the lines of thought of the rulers of the military regime in 1964.

Key-speeches: City. Urbanization. Publics politics

No Mercado Municipal são constituídas relações sociais entre os sujeitos históricos, sendo assim, um ponto de encontro de discussões, de conversas de amigos, de troca de informações, de diversão. Alguns memorialistas da cidade relatam suas vivências, Amadeu de Queiroz nos diz a respeito dos espetáculos de circos que aconteciam em sua infância em torno do Mercado Municipal na pequena, Pouso Alegre: “Os espetáculos mal animavam o sossego das noites de Pouso Alegre, e no dia a dia repisados, cessavam por falta de assistentes. E o circo desaparecia, deixando por muito tempo um círculo escavado e batido no chão do Largo do Mercado”[3]. As diversões também eram marcadas por noites de leilões de doces e assados relatados por outros memorialistas, onde ali se estabeleciam relações culturais e sociais, criando vínculos de amizade e afetivos.

Durante o dia, o espaço era utilizado para comércio. A cidade possuía alguns empórios, porém, devido à localização estratégica do prédio, área central da cidade, próxima a Igreja Matriz e a praça principal favoreciam assim o encontro e a comercialização de certos produtos como: hortaliças, legumes, frutas, cereais, carnes, entre outros. Segundo Antonio Marques de Oliveira “o mercado funciona somente aos domingos, a fim de deixar livre aos que o abastecem, isto é, a pequena lavoura, o resto da semana”[4].

Domingo também seria um dia estratégico. Tudo irá se concentrar naquele entorno: a missa logo de manhã, passeio na praça e o tempo que se tinha naquele dia de fim de semana, após a jornada de trabalho desenvolvida nos outros dias. Ainda compondo o Largo do Mercado observamos a partir da pesquisa, a presença de algumas residências, onde residiam famílias tradicionais da cidade uma delas, sabida que já habitava aquele espaço do largo do Mercado, é a Família Meyer, que até hoje fixa sua residência no mesmo local, ocupantes do espaço central da cidade.

O espaço da cidade e as práticas em torno dela também trazem consigo toda uma rede de representações, de memórias que se entrelaçam construindo o saber e a visão de mundo que envolve os diferentes sujeitos.  Para Roger Chartier[5] a História precisa ser entendida com o conjunto de experiências humanas. Ao se fazer um estudo dos grupos sociais considera-se os significados das práticas coletivas de acordo com as ações dos sujeitos sociais e das convenções instituídas pelas comunidades.

Tomando como ponto de partida a História Social, nossa discussão se permeará sob o novo jeito de se pensar história, tão discutido e debatido nos meios acadêmicos, algo oposto às idéias tradicionais, em que se dá importância apenas a grandes fatos e vultos. Ao estudar o passado não devemos detê-lo como algo finalista e conclusivo, mas sim, a partir dele compreender o presente, como nos afirma Marc Bloch:

“Em primeiro lugar, a história não seria mais entendida como uma ‘ciência do passado’, uma vez que, segundo Bloch, ‘passado não é objeto de ciência. Ao contrário, era no jogo entre a importância do presente para a compreensão do passado e vice-e-versa que a partida era, de fato, jogada. Nessa formulação pretensamente simples estava exposto o ‘método regressivo’: temas do presente condicionam e delimitam o retorno, possível, ao passado”[6]

O final do século XIX e início do século XX marcam uma época de transformações em todo mundo. A tecnologia se mostrava cada vez mais presente na vida dos seres humanos que passavam a desfrutar dos prazeres emanados da luz elétrica e os meios de transporte cada vez mais rápidos e eficientes. Entravamos no que o historiador inglês Eric J. Hobsbawm chamou de “tempo das certezas”, período que vai aproximadamente dos anos de 1890 a 1914. Com o Brasil não poderia ser diferente. Saímos de um regime monárquico e entravamos no regime republicano. Com a República, vinham uma série de promessas que o Brasil enfim seria colocado nos trilhos do desenvolvimento. O novo século trazia consigo, os anseios de parte da população brasileira, formada pela nossa elite, que enfim veria o país se assemelhar às nações européias:

“O Brasil entrava no novo século XX tão confiante como as demais nações: nada como imaginar que seria possível domesticar o futuro, prever e impedir flutuações. Sem dúvida esse é um tempo que se apostou em verdades absolutas, em normas morais rígidas, na resolução de todos os imponderáveis, e fiou-se em modelos que distinguiam, de forma insofismável, o certo e o errado”. [7]

Nos primeiros anos da República a imprensa de Pouso Alegre comungava dos ideais positivistas de modernização defendidos durante as últimas décadas do século XIX.  As notícias defendiam as novas tendências de comportamento da sociedade. E para que possamos aprofundar os significados dos fatos cotidianos da época, o trabalho com a imprensa será imprescindível, tendo em vista que Pouso Alegre possuía diversos jornais impressos. Há algum tempo, essa linha de pesquisa tornou-se crescente no campo da história, por retratar um contexto e uma linguagem social vivenciada na época, sendo um órgão de influência em diversos setores da sociedade.

“Trata-se de entender a imprensa como linguagem constitutiva social, que detém uma linguagem constitutiva social, que detém uma historicidade e peculiaridades próprias, e requer ser trabalhada e compreendida como tal, desvendando a cada momento, as relações imprensa/sociedade, e os movimentos de constituição e instituição do social que esta relação propõe”[8].

Com tais procedimentos metodológicos, passaremos assim a compreender parte do processo histórico do Mercado Municipal de Pouso Alegre, que muitos ainda não possuem o conhecimento, por falta de uma pesquisa mais elaborada e detalhada.

A cidade de Pouso Alegre, localizada no Sul de Minas Gerais, foi uma região onde acolhia os aventureiros que desbravavam a região. Porém, a formação do povoado se deu apenas por volta de 1747, quando os primeiros habitantes se estabeleceram. Com o crescimento da população e o desenvolvimento do pequeno povoado e pela influência do Cônego José Bento Leite Ferreira de Mello, em 1831 elevou-se a categoria de vila. Alguns anos mais tarde, em 1848, a vila foi elevada à categoria de cidade.

Percebemos aqui que o processo de formação da cidade se deu em tempos de curta duração. E com o passar do tempo, os habitantes que ali residiam puderam sentir o que expressa Raymond Williams em sua obra O Campo e a Cidade: (...) Adeus, ó campos, paisagens queridas/ Ó florzinhas beijadas pelo vento!/ Por vós suspiro, ó árvores banidas;/ Que pode resistir ao cercamentos?[9]

Do pequeno povoado, que ali se formou, onde os campos e o sentimento rural prevaleciam livremente, os cercamentos foram tomando conta e a cidade aos poucos se formando. Com isso, houve-se a necessidade de se estabelecer um ponto destinado a comercialização de produtos alimentícios e afins. Com esse intuito que em 1893, na administração do então Presidente da Câmara Municipal José Joaquim Vieira de Carvalho[10] se deu a construção do primeiro prédio do Mercado Municipal. Nossa discussão origina-se aqui, pois a construção deste espaço público se dá quatro anos após a Proclamação da República, onde os ideais higienistas estão se formando, política esta que “ajudaram a promover mudanças, às vezes, substanciais tanto nos padrões de sociabilidade como nas formas de organização do espaço”[11].

No início do século, alguns anos após a construção do prédio, o Mercado passou por uma reforma, mudando todo seu aspecto estrutural, sofrendo apenas uma ampliação até a próxima reforma geral que se dará na década de 70. Sendo assim, podemos iniciar nossa análise que se constituirá a partir de um recorte temporal entre as décadas de 40 a 70.

O período que faremos o estudo neste artigo será de 1940 a 1970, foram momentos de transformações para a cidade de Pouso Alegre, nos campos tecnológicos, econômicos e educacionais. O crescimento da cidade provoca novas mudanças urbanísticas. “A cidade fervilha. A via pública/ onde pululam temas e discursos (Winter) / (...) tuas cidades cheias de artífices/ há comércio e alegria em cada rua; / Mesmo a labuta rude de quem talha/ As pedras no palácio, ou guia o carro/Parece alegre (Summer)”[12] .

Com esta visão de desenvolvimento da cidade é que perceberemos os ideais e as pretensões desejadas perante o Mercado Municipal de Pouso Alegre. Na década de 40, principalmente em seu início, vamos perceber ainda um ar ruralizado no município, porém com nuances de desenvolvimento.

Em 1941, o Mercado Municipal é ampliado na gestão do Prefeito Vasconcelos Costa, pelo aumento do fluxo de comércio e de comerciantes que se instalavam naquele local. Sua ampliação se dá na direção da Rua Princesa Imperial, atualmente Avenida Duque de Caxias.

Podemos perceber o movimento ao redor do mercado e os conflitos existentes em relação ao comércio na matéria Mais Barraquinhas, o jornal se posiciona de forma contrária ao aumento do número de barracas em torno do local.

A fim de completar um número exato de “barraquinhas” em redor do Mercado, foi instalado mais duas, agora são vinte. O passeio do Mercado já está superlotado com esse tipo de comércio que está prejudicando o comércio fixo. Enquanto que outras cidades estão sendo PROÍBIDO tanto barraquinhas como também os “camelôs”, Pouso Alegre está sendo o lugar de despejo de toda espécie de “tapeador”, uns vendendo “remédios” infalível que cura até tuberculosos, outros montando bazares. Há dias, segundo fomos informados, um garoto fraturou a perna ao desviar de uma perua, só pelo motivo de ter que andar pela rua porque os passeios estão cheios de barraquinhas. Vamos acabar com isso?[13].

De cunho crítico, humorístico e noticioso, O Linguarudo era um jornal que por várias vezes criticava ações de pessoas que estariam à frente da cidade ou até mesmo de famílias tradicionais da mesma. Nesta matéria, percebemos um tom fortemente crítico em torno da questão do comércio externo ao Mercado, ou seja, das barraquinhas, visto que atrapalha a dos arrendatários de pontos dentro do mesmo. Ainda ressalta que em outras cidades já se estariam proibindo tais comércios, tendo em vista uma organização do espaço. Percebem-se aí a preocupação com tal organização, muitas vezes estética e até mesmo operacional, ideais estes perdurados da República.

No ano de 1948 foi erguido logo a frente do Mercado Municipal um Obelisco comemorativo pelo Centenário da cidade de Pouso Alegre.  Durante o final da década de 40 e o início de 50 a cidade passou por transformações urbanísticas. A Praça do Obelisco foi  remodelada, e o calçamento tomou o lugar do chão batido de terra. Notamos a presença de mais residências, formando-se assim o centro da cidade.
 
A década de 60 foi muito representativa e decisiva para uma possível construção de um novo Mercado para a cidade. Já nos primeiros anos, especificamente em 1964, o Brasil passa a ter um novo regime de governo: a Ditadura Militar. Um novo modo de pensar a política e a estrutura de uma cidade surgia, a grandiosidade das construções e obras deixava marcas daqueles que estavam à frente do governo. Na cidade de Pouso Alegre, grandes construções marcaram esse período, em obras faraônicas, estão: o prédio do Hospital das Clínicas Samuel Libânio e o Mercado Municipal.

Ao se tratar do Mercado, sua demolição irá ocorrer no início da década de 70. Porém, já no final da década de 60, circulavam nos órgãos de imprensa da cidade críticas e um olhar sobre a realidade do espaço naquele presente momento. A notícia abaixo: Mercado Municipal vergonha de nossa cidade critica os administradores do município devido à precariedade do local.

Enquanto isso, o que temos? Um mercado imundo, anti-higiênico e abandonado pelos poderes públicos. Quem passa por suas imediações, sente-se mal com o cheiro nauseabundo que dalí se desprende, exalado de um mictório que a saúde pública já devia ter fechado de há muito e que não tem nenhuma serventia a não ser para contaminar e infestar seus usuários, se é que alguém o utiliza. Estamos aguardando a palavra de nossos administradores! Quando tomarão as medidas que não admitem prorrogação?[14].

Podemos aqui notar um sentimento de insatisfação por parte dos donos do jornal. No primeiro momento, são criticados aqueles que estão à frente do governo público, pelo fato de ainda não terem aprovado nenhuma idéia ou projeto da construção de um novo local para o Mercado. Em um segundo momento, percebemos a insatisfação perante o próprio local, percebendo a situação deplorável em que se encontra o local. Não se exige a priori a construção de um novo prédio, mas que a prefeitura dê atenção à limpeza, a uma fiscalização mais rigorosa por parte da administração.
Já no início da década de 70, na atual administração do prefeito Antônio Duarte Ribeiro[15], o Mercado sofre uma reforma geral, sendo totalmente reconstruído, sendo ampliado até a Praça Dr. José Garcia Coutinho

Neste período foram alteradas as estruturas do Mercado Municipal. Com sua ampliação o Obelisco do centenário da cidade foi demolido, gerando insatisfação de várias pessoas na cidade. Percebemos aí uma radicalização quanto à mudança do prédio, sinais de modernização do espaço. O estilo tradicional de arquitetura cedeu lugar a um modelo mais moderno e grandioso, sendo totalmente descaracterizado. A notícia Mercado em Reforma defende a remodelação do mercado:

“Consoante o anunciado em números anteriores, o Mercado Municipal, uma das vergonhas da cidade, deverá ser completamente remodelado. Tomando as primeiras providências para tal fim, o mesmo já foi transferido para o prédio dos irmãos Mariosa, antiga Fábrica Mariosa, onde funcionará provisoriamente até que as obras de remodelação estejam completas. Embora circulasse a notícia de que essa obra financiada pelo Banco do Brasil, nossa reportagem foi informada de que tal foi impossível, ficando as despesas a cargo dos cofres públicos[16].

A notícia, meio que duramente, já se inicia denominado o prédio do “Mercado Municipal” como sendo uma das vergonhas da cidade, chamando a atenção dos governantes para que façam um serviço decente em tal remodelação. Durante o tempo da reforma, os comerciantes tiveram que se deslocar para outro estabelecimento, denominado Barracão Mariosa, localizado em uma área central da cidade de Pouso Alegre.

A inauguração do novo prédio se deu no dia 19/10/1970, na comemoração dos 122 anos da cidade de Pouso Alegre. Contou-se com a presença do governador do Estado Israel Pinheiro, do Prefeito Municipal e de autoridades locais. Na ocasião o Sr. Prefeito assim discursou:

(...) Somos um governo da Revolução de 1964, a ela nos integramos nos seus princípios básicos, fiéis a política de integração desenvolvida pelo nosso eminente Presidente Médici. Nestes 18 meses de governo, pela segunda vez, temos a alegria de presidir as solenidades desta magna data e, como no ano anterior, quando presenteamos a cidade com uma funcional Estação Rodoviária que nos seus 10 meses de vida já carreou aos cofres municipais, mais de duzentos mil cruzeiros, também hoje, queremos dar a Pouso Alegre, nesse festivo aniversário, não um só presente, mas vários, e dentre estes, 10 escolas, 15 quilômetros de rede de água e 15 quilômetros de rede de esgoto e este funcional e modelar Mercado Municipal[17].

Este trecho do senhor Prefeito Antônio Duarte Ribeiro publicado no Jornal “A Folha” de Pouso Alegre, tem um caráter político, de engrandecer a forma de governo na Ditadura Militar, demonstrando ser fiéis a tal forma de sistema. Na forma do uso das palavras, dá-se a idéia da entrega de grandes obras, comparando a obra do Mercado Municipal com a da Estação Rodoviária, prestando conta de valores. O majestoso Mercado é uma obra modelo, funcional e modelar, dando mais conforto aqueles que ali freqüentam e trabalham.

Na medida em que os ideais de progresso vão ganhando força, faz-se necessária uma organização urbana dando ordem ao meio público de acordo com as necessidades daqueles que administram a cidade. Após as análises dos jornais percebemos que a cidade é tratada como um lugar de vida capitalista. Os jornais reforçam a necessidade do progresso e da civilização pautados primeiramente nos ideais higienistas. Neste momento histórico, a crítica é direcionada aos administradores municipais silenciando os espaços de tensões e disputas em torno do Mercado Municipal, e com o passar do tempo a imprensa ressalta de forma positiva a política militar do regime militar de 1964. As marcas do rural estão presentes na realidade social, embora a normatização e a regulamentação das memórias dominantes apontem para um lugar onde as reformulações urbanas levariam a cidade a um paraíso civilizatório das repúblicas. Este primeiro estudo nos leva a reflexão de que juntamente com as memórias hegemônicas existem outros sentidos no acontecimento histórico, outras memórias sociais que nos sensibilizam frente às relações de poder e as desigualdades sociais.  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BLOCH, Marc. Apologia da História ou Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
COSTA, Ângela Marques da. SCHWARCZ, Lilia Moritiz. 1890-1914: no tempo das certezas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
CRUZ, Heloísa de Faria & Maria do Rosário da Cunha Peixoto. Na oficina do historiador: Conversas sobre História e Imprensa.  In: História e Imprensa. Revista Projeto História. São Paulo, SP: Educ, 2007.
FENELON, Déa Ribeiro (Org). Muitas histórias, outras memórias. São Paulo: Editora Olha d’Água, 2004. 
KOSSOY, Boris. Os Tempos da Fotografia: o efêmero e o perpétuo. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
QUEIROZ, Amadeu de. Memórias: Dos 7 aos 77. São Paulo, 1956.
SALGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: O tempo do liberalismo excludente – da República a Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Ed. Civilização, 2003.
WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade: Na História e na Literatura. São Paulo: Companhia do Bolso, 2011.



[1] Professora do Curso de História e mestranda em Ciências da Linguagem na Universidade do Vale do Sapucaí.
[2]Graduando do Curso de História da Universidade do Vale do Sapucaí e bolsista da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais).
[3] QUEIROZ, Amadeu de. Memórias: Dos 7 aos 77. São Paulo, 1956, p.43.
[4] OLIVEIRA, José Marques de. Almanack Sul Mineiro, Rio de Janeiro, 1900, p.90.
[5]CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora  UFRS, 2002, p.123.
[6] BLOCH, Marc. Apologia da História: ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p.7.
[7]COSTA, Ângela Marques da. SCHWARCZ, Lilia Moritiz. 1890-1914: no tempo das certezas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
[8] CRUZ, Heloísa de Faria & Maria do Rosário da Cunha Peixoto. Na Oficina do Historiador: Conversas sobre História e Imprensa.  In: História e Imprensa. Revista Projeto História. São Paulo, SP: Educ, 2007, p.260.
[9] WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade: Na História e na Literatura. São Paulo: Companhia do Bolso, 2011, p. 232.
[10] Atuou como Chefe do Executivo na cidade de Pouso Alegre entre os anos de 1892-1904.
[11] SALGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Brasil Republicano: O Tempo do liberalismo excludente – da República a Revolução de 30. Rio de Janeiro: Ed. Civilização, 2003, p. 240.
[12] WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade: Na História e na Literatura. São Paulo: Companhia do Bolso, 2011, p. 242-243.
[13] Jornal O Linguarudo, 12/02/1949.
[14] Jornal A Folha de Pouso Alegre, 09/11/1969.
[15] Antônio Duarte Ribeiro (*08/04/1919) foi eleito Vice-Prefeito do Sr. Jorge Antônio Andere, tomando posse na Administração Municipal a 01/05/1969 em virtude da cassação do titular do cargo pelo movimento revolucionário, permanecendo até 31/01/1971.
[16] Jornal A Folha de Pouso Alegre, 18/04/1970.
[17] Jornal A Folha de Pouso Alegre, 24/10/1970